sábado, 7 de junho de 2008

O SONHO AMERICANO

Foram os estúdios de Hollywood que inventaram os recursos do Technicolor. O mundo passou se enxergar a cores. O mundo ficou mais bonito contando histórias de princesas inverossímeis perdendo sapatinhos de cristal para ganhar impérios de verdade, onde o petróleo jorra a cores que nem sempre estavam no arco-íris, mas que não podiam faltar na criação do gênio humano inventado por Disney ou John Wayne.
O sonho americano voltou a ser sonhado em preto e branco.
Não porque se tenha tornado possível a um filho da Mãe África chegar ao Salão Oval da Casa Branca sem uma vassoura na mão para remover as derradeiras cinzas do charuto que, anos atrás, quase incendiou essas mesmas instituições republicanas vigiadas pelo marido da principal concorrente nas próximas eleições.
O sonho americano volta a ser sonhado na cor de Martin Luther King porque o negro é uma cor que no se cria em estúdio, mas sim nas ruas e nas selvas, assim como no fundo lodoso dos rios e dos mangues. O negro é a mais democrática de todas as cores. Tanto que nem a Revolução Francesa foi capaz de inventá-la – porque Danton, Marat, Robespierre, todos eles juntos jamais seriam capazes de falar o dialeto de Barak Obama ou de um Zumbi dos Palmares.
É claro que muitas outras questões estão envolvidas nesse lance da história contemporânea. O Mundo não vai se desencantar aos pés da escadaria da ONU antes que soem as clássicas baladas e a princesinha Hilary perca definitivamente o seu sapatinho de cristal.
É preciso encontrar a solução para a retirada das tropas do Iraque, é preciso parar de envenenar o planeta, é preciso parar de fingir que não existe Cuba, Zaire, Indonésia, Myamar, do Tibet.
Mas é preciso, sobretudo, que o negro da pele de Obama ensine ao resto do Mundo que nem tudo se escreve e se pinta em cores dos estúdios da Disnney e da Paramont. Porque o mundo se pinta e se escreve com muito mais palavras do que suspeitam todas as legendas políticas já registradas neste pobre planeta desde os tempos de Hamurábi e de Moises.
Por último, é bom lembrar que há um cavaleiro com ares apocalípticos do outro lado da calçada, esperando pelo próximo movimento. Esse homem se chama John McCain.
Ele é tão branco quanto um George W. Bush, mas quem pode reconhecer as cores das suas idéias?

‘Luiz Augusto Crispim’

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