quarta-feira, 20 de julho de 2011

Não se pode fazer política sem ludibriar?

1. Todos sabem, mas são poucos os que se insurgem contra a incoerência e o ludíbrio na política. Passos Coelho, candidato, disse da carga fiscal o que Maomé não disse do toucinho. Como homem de palavra que se dizia, garantiu não subir os impostos, pelo menos os que oneravam o rendimento. Se, afirmou, em limite, a isso fosse obrigado, então, taxaria o consumo. A primeira medida que Passos Coelho, primeiro-ministro, tomou, foi confiscar um belo naco do rendimento do trabalho dos portugueses. Lapidar!
O ministro das Finanças explicou aos ludibriados como se consumará a pirueta. Fê-lo em conferência de imprensa original, estilo guia turístico: à vossa esquerda (página 5 do documento de suporte), podem ver o gráfico tal; à vossa direita (página 27 do documento de suporte) podem contemplar o quadro X. 

Estilo novo, por estilo novo, poderia ter ido mais além. Poderia ter recolhido previamente as perguntas e incluir um desenho no documento de suporte, estúpidos que somos, para nos explicar por que razão os rendimentos do capital foram protegidos. Dizer-me que o não fez para não desincentivar a poupança e porque era tecnicamente impraticável, fez-me sentir gozado. Reduzir o alvo aos cidadãos e deixar de fora as empresas de altíssimos lucros, remete para o lixo o discurso da equidade e faz-me sentir ludibriado.
2. Nunca concordei com a demagogia da redução do número de ministros e com o disparate de constituir giga ministérios. Porque as pessoas, mesmo que sejam ministros, têm limites. Porque a quantidade é sempre inimiga da qualidade. Os primeiros sinais fazem-me sentir grosseiramente ludibriado. A poupança de ministros logo resultou em destemperança de secretários de Estado. E a incoerência entre os princípios anunciados e as práticas seguidas não tardou a ser inscrita em Diário da República. Com efeito, foi criada uma comissão eventual para acompanhar a execução do programa de assistência financeira a Portugal. Tem 30 elementos, trinta. Esta “estrutura de missão”, ESAME, de sua sigla, vai fazer aquilo que, obviamente, seria missão do Governo, designadamente do Ministério das Finanças. Para quem tanto falou de cortar gorduras do Estado, sinto-me ludibriado.
3. Como já afirmei publicamente, o expediente da suspensão do encerramento das 654 escolas, não é mais do que uma manobra política de duplo efeito: imediatamente, recolhem-se louros e popularidade; verdadeiramente, verifica-se o que está pronto e o que está atrasado, quanto às construções em curso. E, porque é isso que está no programa do Governo, continuar-se-á a política de criação de mega agrupamentos, aprofundando a desertificação do interior e tornando irreversível um deplorável crime pedagógico. No início de Julho, Nuno Crato suspendeu o fecho de 654 escolas. Dias volvidos, confirmou que 266 das 654 encerrariam imediatamente. Não teremos de esperar muito para confirmar o ludíbrio total.
4. O ministro da Educação tornou-se popular pela ênfase que emprestou a algumas ideias sobre Educação. Uma delas consistiu em acusar o ministério de ser dono da Educação. Matando com ferro, com ferro começou a morrer no quadro desta pífia adaptação curricular do ensino básico, a que procedeu de forma monolítica. O que é este ajustamento? Tão-só a recuperação da proposta de Isabel Alçada (com excepção do fim do par pedagógico de EVT), inviabilizada pelo PSD, que alegou falta de estudos que a sustentasse (mais uma vez a incoerência e o ludíbrio político em flagrante). No 1º ciclo, onde residem carências graves, tudo ficou na mesma. No restante, o mais relevante são mais horas para Matemática e Língua Portuguesa, como defendeu Maria de Lurdes Rodrigues em 2008. Como reagirão os bons alunos (que também existem) a mais horas, de que não necessitam? Nuno Crato ignora que muito Estudo Acompanhado já era dedicado à Língua Portuguesa e à Matemática, sem que os resultados se tornassem visíveis? Não se interrogou sobre os resultados dos dispendiosos PAM (Plano de Acção da Matemática) e PNL (Plano Nacional de Leitura), que significaram milhares de horas e milhões de euros despejados sobre a Língua Portuguesa e sobre a Matemática e que não impediram os piores resultados em exames dos últimos 14 anos? O problema não é de quantidade mas de qualidade das aprendizagens. E para isso confluem várias variáveis, que o taylorismo de Crato não considera. Cito algumas. As escolas deviam ter autonomia total para encontrar soluções para o insucesso. As horas retiradas às Áreas Curriculares não Disciplinares deveriam ter sido postas à disposição das escolas, que as aplicariam em função da natureza diferente dos problemas que sentem.  Claro que isto supunha directores eleitos e Inspecção Geral de Educação organizada por áreas científicas e núcleos de escolas. A autoridade do professor e a disciplina na sala de aula fariam mais pelos resultados do que todos os planos ou acréscimos de horas. A burocracia esquizofrénica que escraviza os professores já deveria ter sido implodida. Os blocos de 90 minutos são um disparate e os tempos de 45 são insuficientes. Não pode haver disciplinas em que o professor vê o aluno de semana a semana. É imprudente, numa formação básica, reservar para a Matemática e para a Língua Portuguesa o conceito de disciplinas estruturantes. Onde ficam a Educação Física e as restantes expressões, por exemplo? É perigoso o que se está a fazer com a História e a Geografia. Ou quer-se, desde logo, subordinar tudo a um determinado modelo de Homem e Sociedade? 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ambulância Postal


 
Eu Ainda sou do tempo… em que o correio era distribuido por caminho-de-ferro; não terão ainda passado trinta anos – antes das auto-estradas grátis, do petróleo a jorrar no Beato, das Novas Oportunidades e do Simplex – a grande distribuição postal fazia-se ao ritmo do comboio.
Era um ritmo assim-assim, no máximo, em dois dias, uma carta chegava da serra algarvia a Bragança. Agora são precisos três, a menos que queiras pagar correio azul. Aos comboios portugueses, e da Europa também, acoplava-se uma ou duas ou mais carruagens com gente lá dentro, a trabalhar. Os funcionários dos Correios trabalhavam uns de noite (nos comboios mais extensos ao longo das linhas principais) e os outros pela manhã dentro (nos comboios mais curtos).
Nos anos 80, se não depois, o “correio” vindo de Lisboa passava três “Ambulâncias Postais” (assim se chamava este posto dos correios sobre carris) para as costas de uma locomotiva a diesel, uma 1400, e partia, veloz em direcção à Linha do Douro. Era o comboio mais importante do dia e subordinava a si a marcha de todos os restantes… 

Dario Silva 

Uma mais do que merecida homenagem - Helder Madeira

Rostos da 1ª Década do Século XXI - Barreiro <br>
Distinção «Rosto Veterano Autárquico» para Helder MadeiraHelder Madeira, distinguido no ano 2010 com o Galardão «Medalha de Honra» da Cidade do Barreiro, comemora hoje, dia 14 de Julho, 72 anos de vida, por essa razão, decidimos fazer-lhe esta surpresa ( pois nem ele próprio sabe), que no âmbito da atribuição da Distinção «Rostos da 1ª Década do Século XXI», o ex-presidente da Câmara Municipal do Barreiro e da Assembleia Municipal do Barreiro, Helder Madeira, irá receber o «Rosto da Década na área Veterano Autárquico».

Aqui fica o registo e, obviamente, os nossos parabéns.
O jornal Rostos, com a colaboração dos jornalistas da imprensa local atribui este ano a distinção «Rostos da 1ª Década do Século XXI».
O objectivo é destacar entidades e personalidades, em diferentes áreas que pela sua acção foram uma referência nestes anos que marcam a 1ª década do século XXI.
Helder Madeira foi escolhido como «Rosto Veterano Autárquico» da 1ª Década do Século XXI».

«BARREIRO RECONHECIDO» 2010

Medalha de Honra
Helder da Silva Nobre Madeira

No seio de uma família ligada ao trabalho operário nasce, a 14 de Julho de 1939, NO Barreiro e PARA o Barreiro, Helder da Silva Nobre Madeira.

Filho de antifascistas, o seu pai conhece a prisão tinha ele apenas quatro anos, herda dos avás, maternos e paternos, o gosto pelas lutas políticas e revela, desde cedo, uma personalidade fortemente marcada por convicções de justiça social.
A instrução primária é feita no antigo asilo D. Pedro V e segue-se a Escola Alfredo da Silva onde frequenta o curso de formação de serralheiros. No entanto, a vontade de ajudar nas despesas da família fazem com que o mundo do trabalho seja, aos 18 anos, a sua opção. Começa na CUF como servente de carpinteiro e estuda à noite no colégio do Dr. Helder Fráguas e do Dr. Barbado. Ainda assim, outros interesses iriam desviá-lo de uma vida académica. O gosto pelo desporto, designadamente Futebol e Basquetebol faz com que jogue e alcance vários títulos ao serviço do FC Barreirense, dos 1 3 aos 26 anos. No mundo associativo também é conhecida a sua passagem pela Direcção do Cine Clube do Barreiro e da SIRB “Os Penicheiros”, a par de um breve apontamento no Teatro de Bolso do Barreiro (em Janeiro de 1960) de que ainda recorda a exibição, numa só noite, de três peças consecutivas. Enquanto maquinista de cena, função que ocupa no grupo, priva com Fernanda Moreno, Miguel de Sousa e lsabel do Carmo, entre outros ilustres barreirenses.

A adolescência dá lugar à idade adulta e já a trabalhar em Lisboa começa a interessar-se pela actividade sindical. As lutas políticas de 1 968/69, marcam-no para sempre. Lembra as eleições realizadas nesse ano em que a oposição concorreu com as CDE’s Comissões Democráticas Eleitorais. No Barreiro a vitória foi expressiva graças a um forte espírito colectivo de luta que se iria revelar uma dinâmica imparável até 25 de Abril de 74.


A nossa luta, lembra Helder Madeira, era cada vez maior e mais alargada. E ele próprio, enquanto membro da CDE participa na elaboração das Teses do Movimento Democrático do Distrito de Setúbal, ao III Congresso da Oposição Democrática realizado em Aveiro, em Abril de 73.

O facto de estar envolvido na Comissão Democrática Eleitoral, a par do trabalho no sindicato dos empregados de escritório em Lisboa e as reuniões clandestinas em que participava como membro do Partido Comunista Português, a que pertence desde 1 972, fazem com que saia de casa de manhã para só regressar na madrugada do dia seguinte. Os filhos, muito novos à época, via-os de fugida, quantas vezes só aos fins-de-semana. Mas o importante papel desempenhado pela sua mulher e os laços de solidariedade pura que uniam a sua família acabam por colmatar estas ausências.

Após o 25 de Abril de 74 começa uma nova etapa na sua vida. Ao serviço da sua terra - o Barreiro -, Helder Madeira abraça o trabalho autárquico e exerce dezenas de cargos em três décadas de empenho e dedicação desinteressada.

Integra, desde logo, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal. Em Outubro de 75 é convidado para Governador Civil do Distrito de Setúbal. Toma posse e está 11 meses no cargo, até Setembro de 76. Com a Constituição da República tiveram lugar as primeiras eleições. Helder Madeira é eleito Presidente de Câmara Municipal do 8arreiro, em Janeiro de 77, com maioria absoluta. Neste cargo permanece quatro mandatos seguidos, num total de 13 anos. Num tempo em que tudo havia por fazer a sua gestão sensata, ponderada, de diálogo, respeito e cordialidade pelo outro, faz história na cidade. As portas do Município a par das portas da sua própria casa estavam abertas a toda a gente.

É um homem modesto quando diz “Fiz aquilo que me foi possível com a arte e o engenho que tinha” mas é igualmente um homem orgulhoso do seu trabalho quando destaca como a grande obra, depois do 25 de Abril, o túnel na Rua Miguel Bombarda. Como Autarca participa na redacção do “Manual de Gestão Democrática das Autarquias” em 1 978, com outros camaradas de Partido.

Sai da presidência da Câmara em finais de 89 para abraçar a presidência da Assembleia Municipal do Barreiro de Janeiro de 1990 até Dezembro de 2001. Em Outubro de 2005 regressa à presidência da Assembleia Municipal por mais quatro anos, órgão onde permanece um total de 15 anos.
Nalguns casos por inerência de cargo, outras vezes por eleição, conhece e assume uma multiplicidade de funções, grande parte delas de forma pioneira, partindo do zero e fazendo história, uma vez mais. É o primeiro Presidente da Associação de Municípios do Distrito de Setúbal, em simultâneo com a presidência da Câmara Municipal. É o primeiro Presidente eleito da Assembleia Distrital de Setúbal, e é igualmente eleito o primeiro Presidente da Assembleia Metropolitana de Lisboa. Mais tarde passa a fazer parte desta Assembleia e preside duas das suas comissões.

Por inerência de cargo representa a Associação de Municípios de Setúbal no Conselho Consultivo da UNL - pólo da Caparica, e a Associação Nacional de Municípios Portugueses no Conselho Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Faz parte da Direcção Nacional da União de Resistentes Antifascistas Portugueses, e pertence desde sempre ao Conselho Português para a Paz e Cooperação.

Em Outubro de 2009 deixa por vontade própria todos os cargos à excepção de um - Presidente da Assembleia Geral de Accionistas da SIMARSUL, função que ainda desempenha de há seis anos a esta parte.
Nascido e criado no Barreiro há 70 anos, adora esta terra e orgulha-se de dizer que é barreirense.
O Barreiro também se orgulha deste filho ilustre e do trabalho que desempenhou no Poder Local Democrático.

Hoje, a Câmara Municipal distingue, Helder da Silva Nobre Madeira - o Homem, o Cidadão e o Político com a atribuição da MEDALHA DE HONRA. 


In: Rostos

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O barbeiro

Certo dia um florista foi ao barbeiro para cortar seu cabelo.Após o corte
perguntou ao barbeiro o valor do serviço e o barbeiro respondeu:

- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário
essa semana.
O florista ficou feliz e foi embora.No dia seguinte, ao abrir a
barbearia, havia um buquê c/uma dúzia de rosas e uma nota de agradecimento do
florista.
Mais tarde no mesmo dia veio um padeiro para cortar o cabelo.Após o corte,
ao pagar, o barbeiro disse:
- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário
essa semana.

O padeiro ficou feliz e foi embora.No dia seguinte, ao abrir a
barbearia, havia um cesto c/pães e doces e uma nota de agradecimento do
padeiro.
Naquele terceiro dia veio um deputado para um corte de cabelo.
Novamente, ao pedir para pagar, o barbeiro disse:

- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário
essa semana.
O deputado ficou feliz e foi embora.No dia seguinte, ao abrir a
barbearia, havia uma dúzia de deputados  fazendo fila para cortar cabelo.
Essa história ilustra bem a grande diferença entre os cidadãos do nosso país
e os políticos que o administram.

POLÍTICOS E FRALDAS DEVEM SER TROCADOS COM FREQÜÊNCIA PELO MESMO MOTIVO!


(Eça de Queiroz)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Culambismo‏

O Engraxanço e o Culambismo Português

“Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma
modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da
revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve
complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por
todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber
o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de
um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é
identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os
prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta.
À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na
hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era
praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida
prosaicamente como «engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os
chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas
engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da
caixa, etc... Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para
passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da
verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.
Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O
menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o
escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao
Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas.Ninguém gostava
de um engraxador.

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se
irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos
até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a
lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação
hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos
e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto,
importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as
regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and
Brown-nosing.Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os
tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento
profissional do Culambismo.

(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão
mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que
a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de
subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O
culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de
culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar
inglês.”


Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sexta-feira, 1 de julho de 2011

«Sabes do Sócrates? Parece que está óptimo

Foi Portugal que se livrou de José Sócrates ou José Sócrates que se livrou de Portugal?

O leitor que tome nota: se isto fosse a Dinamarca já o caldo estava entornado. Jovem que chegue a Helsingør para as exéquias do pai e dê com a mãe casada com o tio, desata a planear homicídios e a monologar. Em Portugal, nada. E, no entanto, há tantas razões para inquietação aqui como lá. O facto de se tratar de uma inquietação romântico-legislativa inquieta ainda mais. O que se passa é o seguinte: José Sócrates está demasiado contente. Não me conformo com esta alegria, esta cordialidade, este bom perder. Quero vê-lo espernear, recriminar os adversários, lançar um último insulto a Manuela Moura Guedes. Que contentamento é este? Trata-se de uma boa disposição que ofende. Magoa até quem, como eu, nunca votou nele. Afinal foi Portugal que se livrou de José Sócrates ou José Sócrates que se livrou de Portugal?
Sócrates tem a desfaçatez de se comportar como aquelas namoradas que aceitam muito bem a notícia de que o namoro acabou. Não há lágrimas, não há ranho, não há nada. O fim da relação não é um drama, é um alívio. Ficam mais soltas, mais leves, mais vivas. E têm finalmente tempo para ir para França tirar aquele curso de Filosofia que sempre quiseram frequentar. Amigo leitor, não era José Sócrates que estava a entravar o nosso desenvolvimento, éramos nós que estávamos a entravar o desenvolvimento de José Sócrates.
Assim como vamos sabendo das antigas namoradas através dos amigos, vamos sabendo de José Sócrates através do Expresso. E remoemos as informações com azedume. Que ideia é esta de ir estudar para Paris? E filosofia? Não faz sentido. Uma pessoa chamada Sócrates decidir estudar filosofia é como um tipo chamado Eusébio querer fazer carreira no futebol. É má ideia, proporciona comparações desagradáveis.
E não podemos deixar de sentir que Sócrates não vai para França para nos esquecer. Na verdade, Sócrates já nos esqueceu. E, ao contrário da generalidade dos emigrantes, Sócrates não parte em busca de melhores condições de vida. José Sócrates não vai emigrar para fugir de José Sócrates - até porque, em princípio, José Sócrates vai com José Sócrates. Sócrates vai emigrar para fugir de nós. Alguém que lhe apreenda o passaporte, por favor. Era o que faltava. Obriguem-no a aguentar as medidas da troika até ao fim. Só pode sair do País quando o memorando estiver cumprido. »

"Ricardo Araujo Pereira" 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Burocracia

Crítica. A incrível capacidade de se criar burocracia.

A burocracia atrapalha qualquer negócio ou atividade e o normal é as pessoas reclamarem do seu excesso. Todos dizem que deveria haver menos burocracia aqui e ali. Na prática há uma tendência nas pessoas de aumentar a burocracia.

No órgão que trabalho existe o arquivo geral e até pouco tempo era só solicitar no balcão um processo em que precisávamos somente algum dado e devolver na hora. Era tudo simples e rápido. Há um tempo foi criado um arquivo em uma sala reformada e foi colocado uma pessoa para controlá-lo.

Não demorou muito e começou a necessidade de preenchimento de formulário e ter que aguardar até 15 dias para ver um processo. Muitas vezes temos um prazo de 10 dias para atender uma determinação judicial e a resposta atrasa, pois o pessoal do arquivo não consegue atender a todos os pedidos, culpa da própria burocracia criada.

Hoje o pedido de um processo tem que ser feito via sistema, foi criado um formulário eletrônico onde tudo é feito automaticamente, mas a demora é cada dia maior, pois perde-se tempo preenchendo o formulário, depois indo buscar os processos, acusar recebimento no sistema e depois redigitar todos eles para fazer a devolução.

A regra não pode ser quebrada, mesmo que o dado que se quer é somente a data de nascimento ou outro dado que poderia ser anotado em segundos se fosse permitido ver o processo no próprio arquivo. A explicação é que qualquer ato feito fora do sistema pode levar a perda de controle do arquivo.

Por isso há tantas regras e formulários para as pessoas requerem algum produto no serviço público. O normal é reclamar disso, mas quando temos a chance de simplificar o que fazemos é aumentar ainda mais burocracia.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Veja a lista completa dos trogloditas que vão acabar com Portugal...

Pedro Passos Coelho apresentou esta tarde, (17 de junho), ao Presidente da República o executivo de 11 nomes, depois de na quarta-feira ter sido nomeado primeiro-ministro. Posse do novo Governo PSD/CDS-PP é na terça-feira. Veja a lista
Pedro Passos Coelho apresentou esta tarde ao Presidente da República o executivo de 11 nomes,
Pedro Passos Coelho apresentou hoje ao Presidente da República, Cavaco Silva cumprindo o nº 2 do artigo 187 da Constituição a lista dos membros do XIX Governo Constitucional:
Primeiro-ministro indigitado - Pedro Passos Coelho (PSD)
Ministro de Estado e das Finanças – Vitor Gaspar (Independente e conselheiro da Comissão Europeia)
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – Paulo Portas (CDS-PP)
Ministro da Defesa Nacional – José Pedro Aguiar Branco (PSD)
Ministro da Administração Interna – Miguel Macedo (PSD)
Ministra da Justiça – Paula Teixeira da Cruz (PSD)
Ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares – Miguel Relvas (PSD)
Ministro da Economia e do Emprego – Álvaro Santos Pereira (Independente, académico)
Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território – Assunção Cristas (CDS-PP)
Ministro da Saúde – Paulo Macedo (Independente)
Ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência – Nuno Crato (Independente)
Ministro da Solidariedade e da Segurança Social – Pedro Mota Soares (CDS-PP)
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros – Luís Marques Guedes (PSD)
Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro – Carlos Moedas (PSD)
Secretário de Estado da Cultura - Francisco José Viegas (PSD)
A orgânica do governo foi acordada entre PSD e CDS com a assinatura pública dos acordos político e programático, que será tornada pública apenas quando a coligação levar ao Parlamento o programa de governo.
Depois da tomada de posse, que será na terça-feira, Passos Coelho tem 10 dias para apresentar o programa na Assembleia da República.

'governo' 'psd' 'cds-pp'

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Vamos lá a saber

Se substituíssemos os cinco partidos que têm ocupado invariavelmente o Palácio de S. Bento desde 1999 por três outros novinhos a estrear – o Partido da Esquerda, o Partido do Centro e o Partido da Direita – ficaríamos pior? Aliás, perderíamos alguma coisa?
É que esta disfunção sistémica em que à esquerda não é possível formar coligações para governar, porque PCP e BE são os auto-proclamados proprietários do povo, da felicidade e dos famélicos e não admitem misturas com a alteridade ideológica, está-nos a fazer muito mal e não vai desaparecer tão cedo. Os imbecis querem continuar a vender demagogia para imberbes e caducos, revolucionários e nefelibatas, até que o Inferno gele ou o capitalismo arda, o que acontecer primeiro.
Porque é que não fazem greve às eleições e deixam o Parlamento entregue aos imperialistas? Seria a forma mais rápida para testar as profecias de Marx e, caso sejam verdadeiras, em pouco tempo o proletariado daria a volta a isto. Assim, insistindo em ir para a Assembleia da República dizer coisas, mas nem fodendo nem saindo de cima, quem se lixa é a dialéctica. 

In: Aspirina B

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Portugal perdeu 4 lugares em reserva de ouro e ocupa agora a 12ª posição no mundo



As reservas de ouro deixadas por Salazar, pouco a pouco desaparecem, sobretudo na última decada.

Portugal perdeu quatro lugares no ‘ranking’ dos bancos centrais que detêm mais metal amarelo.
As reservas de ouro do Banco de Portugal ocupam o 12º lugar na lista dos bancos centrais que detêm mais metal amarelo, segundo dados do World Gold Council divulgados este mês. No entanto, nos últimos dez anos, Portugal perdeu quatro lugares no ‘ranking’ dos países com maiores reservas de ouro. O ouro português foi ultrapassado por quatro países emergentes: a China, a Rússia, a Índia e Taiwan. Do ‘ranking’ foram excluídas as reserva de ouro do BCE e do FMI.
Nos últimos dez anos as reservas nacionais desceram 37%, de 606,7 toneladas para as actuais 382,5 toneladas, com o objectivo de diversificar as reservas. Apesar das vendas, que ocorreram entre 2002 e 2006, Portugal continua a ser o país em que o ouro tem maior peso no total de reservas, segundo o WGC. O metal precioso corresponde a 81% do total das reservas. Já na China e na Rússia, por exemplo, o ouro representa apenas 1,6% e 7,5% do total de reservas.
O baixo peso do metal precioso nas reservas dos países emergentes faz o WGC esperar que os bancos centrais desses países continuem a comprar ouro. “Acreditamos que a tendência das compras líquidas no sector oficial continuem em 2011 com os bancos centrais (especialmente nos emergentes) a virarem-se para os programas de compra de ouro para diversificarem as suas reservas”, refere a entidade
As maiores reservas de ouro do mundo por Pais e em Toneladas

EUA 8133,5

Alemanha 3401
Itália 2451,8
França 2435,4
China 1054,1
Suíça 1040,1
Rússia 811,1
Japão 765,2
Holanda 612,5
Índia 557,7
Taiwan 423,6
Portugal 382,6 


Fonte: World Gold Council

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dinâmicas e Dinamene

A TVI cortou a primeira parte da análise de Marcelo Rebelo de Sousa ao debate Sócrates-Passos no vídeo que disponibiliza para suportar esta notícia: «Dinâmica de vitória está do lado do PSD». Na parte censurada, Marcelo diz coisas hilariantes, embora não tão hilariantes como aquelas que o vídeo truncado oferece. Uma delas consiste no seu veredicto a respeito da discussão do tema da Saúde. Passos foi às cordas, foi espancado, asseverou o Professor. Com tal dano que, à maneira do futebol, o jogo parecia resolvido. Marcelo até sabia como concluir a faena sem hipótese para o animal: bastava ter ido buscar as Novas Oportunidades e continuar a sangria até ao fim. Estranhamente, lamenta-se sem o conseguir esconder, Sócrates não foi por aí. E já não estranhamente, diz que este tema tomou 15 minutos ao debate; quando o relógio fixou 30, exactamente metade do tempo total. Assim, temos aqui duas ideias: Marcelo regista uma abissal diferença entre os dois a favor de Sócrates na primeira metade do debate, e Marcelo indica que gostaria de ter visto Passos reduzido a uma papinha.
Porém, o segmento que a TVI teve o cuidado de seleccionar cirurgicamente é ainda melhor quanto ao apreciado efeito de comicidade. No seu estilo salão de chá para tias de Cascais, que lhe deu justa popularidade na indústria da política-espectáculo, inventa sem pingo de vergonha uma tanga esquizóide onde Passos aparece a vencer o debate nos 30 minutos finais. E como? Marcelo alinha na inanidade da claque do PSD: através da repetição da expressão “700 mil desempregados” e da acusação de culpa fulanizada em Sócrates. Tão debochada é a sua criatividade analítica, apagando os episódios em que Passos continuou a ser castigado em cada um dos temas seguintes, que chega ao ponto de falar das expressões faciais de Sócrates (??) e da ultrapassagem do minuto final (!!) como provas da sua derrota. Estamos num registo que sugere mazelas neuronais decorrentes do consumo de LSD aquando do Cascais Jazz em 1971.
No final, Marcelo faz uma síntese subtextual do que estava em causa neste debate: caso Passos tivesse saído maltratado do páreo, a campanha do PSD corria o risco de acabar ali. Por isso o alívio incontido, alarve, que se viu em tantos, militantes e jornalistas arregimentados, pelo modo elevado – e nada ressentido – com que Sócrates encarou o confronto, dessa forma permitindo a sobrevivência do líder da oposição. Para Sócrates, havia questões de fundo, estratégicas, onde marcar linhas divisórias, as quais tinham especial relevância para o eleitorado à esquerda. A espuma dos dias, e até a fraquíssima qualidade política de Passos, eram tópicos menores. Aliás, se há algo a dizer das expressões de Sócrates como indicativo dos seus estados de alma, então seria uma bonomia quase afectuosa que haveria a registar.
Marcelo afirma, sem qualquer convicção e para fazer coro, que o PSD entrou numa dinâmica de vitória à conta do debate. E talvez acerte, talvez esse partido não tenha mais nada a que se agarrar e dependa da reclamação infantil e obsessiva da vitória contra o mito que criaram e alimentaram durante anos para conseguirem acreditar em si próprios. Curiosamente, e pelo meio, Marcelo deixou rasgados elogios a Sócrates, não tendo gastado nenhum dos seus usuais e escabrosos insultos. Será que entrou numa mal disfarçada dinâmica de saudade?
In: Aspirina B

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os preços dos combustíveis no planeta...‏

Os preços dos combustíveis no planeta ...
Eles tomam-nos por idiotas! E,  NÓS SOMOS OS IDIOTAS

Bélgica - diesel € 1,222!
França
- diesel € 1,294!
Azerbaijão - Diesel 0,31 euros
Egipto - Diesel 0,14 Euros
Etiópia - Super 0,24 EUR
Bahamas - Diesel 0,25 EUR
SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Bolívia - Super 0,25 EUR
Brasil - Diesel 0,54 EUR
China - Normal 0,45 EUR...........e depois os chineses é que têm culpa do excesso de consumo!!!!! ou nós é que também andamos a pagar para estes?
Equador - Normal 0,24 EUR
Gana - Normal 0,09 EUR!!!!!!!
Gronelândia - Super 0,50 Euros
Guiana - Normal 0,67 EUR
Hong Kong - Diesel 0,84 Euros
Índia - Diesel 0,62 EUR
Indonésia - Diesel 0,32 EUR
Iraque - Super 0,60 EUR
Cazaquistão - Diesel 0,44 EUR
Qatar - Super 0,15 Euros
Kuwait - Super 0,18 Euros
Cuba - Normal 0,62 EUR
Líbia - Diesel 0,08 Euros!!!!!!!
Malásia - Super 0,55 Euros
México - Diesel 0,41 EUR
Moldávia - Normal 0,25 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Omã - Super mais 0,20 euros
Perú - Diesel 0,22 EUR
.   SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Filipinas - Diesel 0,69 EUR
Russia - Super 0,64 Euros
Arábia Saudita - Diesel EUR 0,07 !!!!!!
África do Sul - Diesel 0,66 EUR
SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Suazilândia - Super 0,10 ! Euros!!!!!
SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Síria - Diesel 0,10 Euros!!!!!
Trinidad - Super 0,33 EUR
SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Tailândia - Super 0,65 EUR
Tunísia - Diesel0,49 EUR
EUA - Diesel 0,61 Euros
Venezuela - Diesel 0,07 EUR!!!!!
Emiratos Árabes Unidos - Diesel 0,18 Euros
Vietname - Diesel 0,55 EUR
Ucrânia - Diesel 0,51 EUR
Portugal - Diesel € 1,405!
 
 
É inacreditável, não é?

Os países da União Europeia, e os seus Ministros das Finanças, realmente tomam as pessoas por idiotas ...  + IVA TIPP + PIT + ISF + IVA + imposto de consumo sobre a extorsão de diversos e variados ..+ RQP (Raio que os Parta)!!! + ...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Sócrates arrisca-se a ganhar as eleições

Estamos a menos de um mês das eleições e não é que Sócrates está a discutir, taco a taco, as eleições com o PSD? Quem diria que, em algumas sondagens como as da Marktest para o Diário Económico e TSF e da Católica, o PS aparece mesmo à frente nas intenções de voto.
Depois do desgaste de seis anos de governação; depois da sucessão de casos duvidosos e polémicos (Freeport, TVI, o diploma alegadamente passado a um domingo ou as alegadas ‘assinaturas de favor' naquelas casas esquisitas na Guarda); depois de ter impingido aos portugueses quatro PEC e dois orçamentos de austeridade, depois de ter deixado como legado um desemprego, défice e dívida em valores recorde, não é que Sócrates se arrisca a ganhar as eleições de 5 de Junho?
No resto da Europa, os líderes que implementaram as medidas de austeridade estão a cair um a um. Na Irlanda, Brian Cowen desapareceu do mapa político; em Espanha, Zapatero rendeu-se às sondagens e já não se volta a candidatar; em França, Sarkozy foi ultrapassado por Marine Le Pen e Strauss Kahn; em Itália, a popularidade de Berlusconi anda pelas ruas da amargura e mesmo nos EUA, não fosse o Bin Laden, e Obama já teria comprometido a reeleição dos democratas. Por cá, Sócrates arrisca-se a fazer o ‘hat-trick' e a ser primeiro-ministro pela terceira vez. Como dizia ‘sir' Churchill, na guerra só se morre uma vez, mas na política morre-se muitas vezes. E à terceira Sócrates volta a ressuscitar nas sondagens.
E porquê? É a chamada ‘one million dollar question'. É uma pergunta que já nos custou muito dinheiro e que se calhar ainda nos vai custar muito mais. Os mais irónicos diriam que é a ‘78 billion euro question'.
E a resposta é simples. As pessoas têm medo da chamada agenda liberal de Pedro Passos Coelho! Basta recordar que, depois do estado de graça inicial, as sondagens começaram a ser menos simpáticas com o PSD quando este apresentou as propostas de revisão da Constituição que pretendiam riscar da Lei Fundamental as expressões "tendencialmente gratuito" no capítulo da saúde e "sem justa causa" na proibição dos despedimentos, colocando, ao invés, a enigmática "razão atendível". E, no programa eleitoral apresentado esta semana, o PSD vai ainda mais longe e liberaliza o que nem a ‘troika' ousou liberalizar.
E as pessoas têm medo desta agenda liberal e tendem a ser conservadoras na hora de votar. Como diria o irónico Tom Wolfe, um conservador é um liberal que já foi assaltado. E, se calhar, os portugueses preferem voltar a ser assaltados por quem lhes vai apertar o cinto e esvaziar os bolsos, como diria Paulo Portas, do que arriscar a ficar sem as calças.
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Pedro Sousa Carvalho, Subdirector do Economico

quarta-feira, 27 de abril de 2011

REVOLUÇÃO DO 25 DE ABRIL: UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

O Povo Português não gera Revoluções

As revoluções portuguesas são como a ponte de Lisboa. Antes do golpe de estado chamava-se “Ponte Salazar” depois passou a chamar-se“ Ponte 25 de Abril”. Apenas mudam a fachada e a lata. O povo, tal como o rio Tejo, cansado de inúmeras voltas e de tantos despejos, sempre pacífico e adaptado, tem permanecido igual a si mesmo, ao longo da História: vagaroso mas internacional(1).
De época para época, alguns insatisfeitos do sistema, os filhos dos senhores do regime, provocam um golpe de estado, apoderam-se dele e mudam-lhe o nome. Povo e golpistas conhecem-se de ginjeira: aquilo a que dão o nome de revoluções, pouco mais se trata do que da troca de nomes, dum acerto de contas e de acomodação à história dos vizinhos; o mérito do acontecimento está em dar ocasião à necessidade do povo festejar e aplaudir ou, quando muito, resolver alguns deveres de casa esquecidos. Os actores sabem que a injustiça não é boa mas a justiça seria incómoda. Optam então pela vida dos dos “brandos costumes” sem a preocupação de fazer justiça.
Arranjam um nome monstro para justificarem as suas acções e branquearem as suas intenções. No caso do 25 de Abril, um grupo de cretinos (2) aplicou ao regime autoritário de Salazar o nome explosivo de fascismo, metendo-o (internacionalizando-o) assim no mesmo rol de Franco, Mussolini, Hitler e Pinochet. Então, a nação inteira passou a dar-se conta do monstro e resolveu dar caça ao fantasma. Este vai recebendo cada vez mais atributos até que passa de lobo a Minotauro. A partir deste momento o povo perde a ideia passando a viver do medo do labirinto. Entretanto vão surgindo alguns lobitos e o povo vai distraindo o medo no “Jogo ao Lobo”!
O país da Europa com as maiores desigualdades sociais entretém-se em argumentações opiniosas deixando as coisas importantes para os nomes engordados em nome das classes desfavorecidas. Já habituado à humilhação e à atitude governativa arrogante e distante, o povo servil, filho da “revolução da liberdade” até aceita a censura em nome da democracia. O estado português já há séculos não tem povo, chega-lhe a população. A população já há séculos que abdicou de o pretender ser, contentando-se em viver na sombra da Face Oculta do Estado. Deixou o palco da nação aos dançarinos do poder!
O 25 de Abril passou – A Revolução está por fazer
Golpistas abusam do Nome Revolução
Com o golpe de estado de Abril, o regime autoritário é acabado no meio da guerra colonial. O povo português, o que quer é esquecer a guerra e os políticos o que querem é a confusão para se poderem organizar e não terem de assumir responsabilidade pela traição dos interesses da nação, dos retornados e do povo nativo. Segundo o reconhecido historiador José Saraiva, o abandono das províncias ultramarinas constituiu “a página mais negra da História de Portugal”. Disto não se fala; reduz-se a história a folclore e a governação ao jogo do rato e do gato…
O 25 de Abril assenta em pés de barro. Fez um golpe de Estado e deu-lhe o nome de revolução. Os seus actores não pensavam em revolução. Foram surpreendidos pelos acontecimentos que eles próprios provocaram e alguns, entre eles, (especialmente Otelo S. de Carvalho) serviram-se do comunismo/socialismo para legitimarem e darem uma projecção histórica ao movimento dos oficiais descontentes. O 25 de Abril foi um golpe de Estado que surgiu de motivos pessoais e antipatrióticos de alguns, mas nunca uma revolução. O novo regime começou mal e com actos inglórios tal como acontecera na implantação da república. Mas disto não deve rezar a História, o povo precisa de festa e os governantes de distarcção. Não importa viver, interessa é ir-se vivendo!
O programa MFA (Movimento das Forças Armadas) pretendia Democracia, Descolonização e Desenvolvimento. Os primeiros dois anos foram uma confusão maluca. Tudo era facho e qualquer jovem adolescente se armava em guarda de comícios, por vezes até de metralhadora na mão. Recordo que quem tinha um emprego bom, ou uma casa digna, logo era apelidado de “facho”, pelo povo gozador, num misto de atmosfera de inveja e admiração. Depois com a nova constituição tudo ficou camarada e irmão: camarada de facho na mão!
Os partidos, sem mérito, passam a viver do prazer de terem organizado as suas fileiras. Desfavorecem a politização do povo para fomentarem o partidarismo e um discurso público dirigido à conservação do poder.
Entretanto, o povo sente-se humilhado e deprimido; o seu sentimento de identidade definha, sendo compensado apenas no sentimento duma grandeza promissora dos irmãos da lusofonia e da madrasta União Europeia. O sentimento de identidade nacional baseado no cristianismo, na cultura nacional e na ideia das grandezas dos descobrimentos não agradam às novas elites internacionalistas. A má experiência do povo com a própria elite, sem sentimento de nação nem de povo, leva-o a sentir-se apenas como inquilino anónimo de alguns senhores da praça pública, dos canonizados da democracia. Sente-se filho de pai incógnito!
Portugal continua preso numa mentalidade de arrendatário de ideologias e senhorios mercenários que o povo tem de acatar para ir vivendo! Portugal, apesar de golpes de estado e de pseudo-revoluções, continua a sofrer na pele a experiência de outrora: a experiência dos ingleses senhores das quintas do vinho do porto que viviam na Inglaterra e tinham em Portugal os seus feitores portugueses a cuidar dos seus interesses. O Estado português tornou-se numa feitoria de alguns mercenários. Daqui vem a sabedoria portuguesa que, muitas vezes, diz: “ isto é para inglês ver”.
As nossas elites intelectuais não são em nada inferiores às europeias. O problema está no seu individualismo e na sua falta de consciência de povo, e de espírito colectivo! As elites políticas vivem do nome, interessando-se, a nível de país, apenas por terem Lisboa, como sala de visitas de Portugal onde elas podem receber vaidosamente os amigos. Colaboram com um internacionalismo interessado em destruir as nações para depois poderem surgir como salvadores e implantar um governo mundial de burocratas e tecnocratas contra os biótopos nacionais.
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O povo, antigamente, sofria sob a bandeira do trono e do altar; hoje sofre sob a lama das massas a toque de caixa partidária que segue o ritmo das multinacionais.
A grande diferença: Hoje o povo não se pode queixar, porque os seus opressores vêm do seu meio e parte deles são eleitos democraticamente.
Já Ovídeo escrevia nas Metamorfoses: “O destino conduz os de boa vontade e arrasta os de má vontade”. Com a celebração do 35° aniversário do golpe, já seria tempo de Portugal ir à cata dos de boa vontade!...
O aniversário do golpe de estado poderá deixar de ser um pretexto para se tornar numa oportunidade. Urge descobrir a nação e ter a vontade de se assumir como povo. O grande povo e a nação valente que “deu novos mundos ao mundo” tem-se manifestado incapaz de se descobrir a si.
Um Estado é como uma planta. Se adoece, os parasitas cobrem-na facilmente. O país tem-se modernizado; não tem inimigos nem ódios mas encontra-se apático e doente. Depois do golpe de Estado, o fanatismo republicano e o oportunismo continua a tradição da “apagada e vil tristeza” dum conservadorismo míope e dum progressismo cego! Os cães de guarda do Estado contentam-se em morder e em ladrar alto e o rebanho atemorizado lá se vai movendo no respeito à própria lã que vê nos dentes deles!
Acabe-se com o louvor do golpe e dos golpistas. Não notaram ainda que a revolução se encontra, desde há séculos, por fazer! Para nos levarmos a sério teremos de descobrir primeiro o povo e a nação. Então seremos capazes de enfrentar as desgraças históricas, sejam elas progressistas ou conservadoras. Há que aceitá-las, para nos podermos mudar e assim mudar o rumo português para o bem-estar de todos, nacionais e estrangeiros. Para isso precisam-se mulheres e homens adultos! “O povo unido jamais será vencido”, cantam as sereias, na certeza de que ele se embala na música e não se descobre como povo! Não vale a pena o queixume. Quem se queixa é pobre ou não pode! Trata-se de mudar mudando-se! A nação precisa de todos.

António da Cunha Duarte Justo 

(1)     Salvaguardem-se as diferenças regionais da população. Esta é muito diferenciada e rica, tal como os seus rios e a sua paisagem!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Criação de circuitos de luz

Quando a norte-americana Michal Lipson começou seus estudos em fotônica do silício há dez anos, poucos na comunidade científica a levaram a sério. A ideia de substituir os elétrons por fótons (porções minúsculas de luz) no transporte de dados dos processadores era extravagante demais, segundo conta a própria pesquisadora.
Por insistir no trabalho, Lipson figura entre os pioneiros nessa área e é um dos nomes mais respeitados entre os especialistas que estão desenvolvendo o novo paradigma da arquitetura de hardware, o computador com componentes fotônicos, tecnologia que permitirá retomar o ritmo do aumento de velocidade dos processadores e tornar possível a construção de objetos de ficção científica como mantos de invisibilidade.
A cientista possui fortes laços com o Brasil, onde morou até os 19 anos. Ela é filha de Reuven Opher, professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e coordenador do Projeto Temático "Nova Física no Espaço – Formação e Evolução de Estruturas no Universo", apoiado pela FAPESP.
Lipson é irmã da astrofísica Merav Opher, professora da Universidade George Mason, também nos Estados Unidos, que investiga a evolução de ondas de choque e camadas não-lineares de plasma associadas ao vento solar.
Lipson fez os dois primeiros anos de graduação em física no Instituto de Física da USP, curso que concluiu em 1992 no Instituto de Tecnologia de Israel (Technion), instituição na qual também fez o mestrado e o doutorado em física.
Entre 1999 e 2001, fez pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), nos Estados Unidos, onde desenvolveu com o professor Lionel Kimerling trabalhos em fotônica do silício.
Desde 2001, é professora na Universidade de Cornell, onde coordena o grupo de nanofotônica da instituição (Cornell Nanophotonics Group, CNG). Em 2010, foi condecorada com o MacArthur Fellows Program, premiação de US$ 500 mil destinada a talentos promissores em diversas áreas.
Lipson esteve entre os conferencistas convidados para o Workshop Fotonicom/Cepof, realizado em novembro de 2010 em Atibaia (SP) e organizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Fotônica para Comunicações Ópticas (Fotonicom) e pelo Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica de Campinas (Cepof), ambos apoiados pela FAPESP.

Agência FAPESP – A eletrônica permitiu a construção dos processadores atuais presentes nos mais diversos dispositivos desde relógios de pulso até os supercomputadores. O que a fotônica pode oferecer neste momento?

Michal Lipson – A eletrônica atual já encontrou os seus limites. A lei de Moore, que estimou que a cada 18 meses os processadores dobrariam de capacidade, era observada até alguns anos atrás. Porém, hoje, ela não se verifica mais. Ao comprarmos um computador novo hoje, ele terá uma capacidade muito próxima à de uma máquina fabricada há dois anos. Ou seja, a teoria de Moore está estagnada e a óptica pode abrir as portas para que essa revolução proporcionada pela microeletrônica possa continuar.
Agência FAPESP – Qual é a limitação da eletrônica?
Michal Lipson – O problema está basicamente na dissipação de energia. Os fios elétricos esquentam e dissipam muita energia quando transportam os elétrons a longa distância. E longa distância para os elétrons significa passar de um lado para outro do próprio chip, algo como 1 centímetro, por exemplo. Chamamos isso de interconexão longa e é justamente nesse ponto que a óptica tem muito a contribuir.
Agência FAPESP – Como a óptica resolve esse problema?
Michal Lipson – Diferentemente dos fios elétricos, os dutos de luz não dissipam energia, ou seja, não há perdas.
Agência FAPESP – A fotônica pode substituir totalmente a eletrônica?
Michal Lipson – Não. Os circuitos do futuro serão construídos por meio de uma integração entre fotônica e eletrônica. Isso porque a eletrônica ainda é muito eficiente no processamento de informações e há espaço para novas tecnologias nesse ponto. Por isso, o processamento ainda será eletrônico. O problema que estamos enfrentando está na transmissão dessa enorme quantidade de informação e em uma velocidade muito alta, um processo que dissipa bastante energia.
Agência FAPESP – Essa transmissão de dados ocorre no interior do processador?
Michal Lipson – Esse transporte de dados ocorre também entre os componentes microeletrônicos do computador, como entre a memória e o processador, e entre um processador e outro. Esse processo todo influencia na velocidade da máquina. Por isso, o computador do futuro próximo terá componentes eletrônicos com conexões ópticas. Dentro de dez anos, teremos máquinas funcionando com luz em seu interior.
Agência FAPESP – Quais são os desafios para chegar a essa nova geração de computadores?
Michal Lipson – Basicamente, conseguir a interação entre eletrônica e a fotônica. O trabalho do nosso grupo de fotônica do silício foi importante por ter demonstrado que essa interação é possível. Mostramos que é possível fazer fotônica utilizando a mesma tecnologia da microeletrônica e as futuras máquinas poderão utilizar a mesma plataforma usada hoje.
Agência FAPESP – Como começaram as pesquisas em fotônica do silício?
Michal Lipson – Essa área foi iniciada por vários cientistas no mundo e o meu grupo em Cornell foi um dos pioneiros. É uma área nova. Os primeiros artigos científicos foram publicados em 2004 e tratavam de moduladores de silício. Meu grupo demonstrou o primeiro desses dispositivos.
Agência FAPESP – Como estão as pesquisas hoje? A eletrônica e a fotônica já estão interagindo?
Michal Lipson – Estamos muito perto disso. É importante ressaltar que em 2004 havia pouquíssimos grupos de pesquisa trabalhando com fotônica do silício. Quando eu comecei a minha carreira em Cornell, em 2001, era muito comum eu ser questionada durante as minhas palestras com perguntas como: “Por que você pesquisa essa coisa maluca?” Hoje todas as maiores universidades do mundo investigam eletrônica do silício, assim como as grandes empresas mundiais do ramo de microeletrônica. Estamos falando de IBM, Intel, Motorola e vários outros gigantes que investem pesado no desenvolvimento da fotônica do silício.
Agência FAPESP – Já existem experimentos bem-sucedidos dessa integração entre fotônica e eletrônica?
Michal Lipson – A Intel demonstrou recentemente um importante avanço dessa integração. A IBM está envidando grandes esforços nesse sentido por meio de uma parceria com o MIT. O nosso grupo em Cornell está entre os mais fortes nessa pesquisa e eu acredito que em dois anos, ou até menos, teremos uma demonstração da eletrônica conversando com a fotônica e fazendo uma comunicação de massa. Atualmente, o que temos são componentes individuais que trocam sinais entre eles. Meu grupo realizou um experimento que enviou um sinal elétrico que passou da eletrônica para a óptica e depois fez o sentido inverso, da óptica para a eletrônica. Isso a gente demonstrou no chip. O que falta é integrar todos os componentes processadores, memória etc., simultaneamente.
Agência FAPESP – Esse seria o novo paradigma da arquitetura de computação?
Michal Lipson – Sim. Há outras tecnologias para o futuro, como o computador quântico, mas ainda é para um futuro mais distante e ele não servirá para todas as aplicações. Ele não deverá substituir completamente a tecnologia computacional, pois será adequado para tarefas muito específicas e só para o processamento de dados. Portanto, a fotônica é a melhor candidata para a próxima tecnologia de computação, na área de transmissão de informação.
Agência FAPESP – Quais seriam as outras aplicações da fotônica?
Michal Lipson – Agora que estamos conseguindo fazer uma fotônica em chips e com alta qualidade, muito superior ao que tínhamos há dez anos, abriu-se caminho para várias outras aplicações. Uma delas é a biofotônica, aplicação que lança mão de ferramentas de análise de estruturas biológicas, como as pinças ópticas, e também em terapias. Além dessa, o setor de telecomunicações está entre os mais beneficiados pela fotônica, porque ela permite a redução do chamado custo por bit, ou seja, torna-se cada vez mais barato transportar grandes volumes de informação. Também a manutenção é mais barata, pois não há necessidade de controle de temperatura da rede e outras limitações próprias da eletrônica.
Agência FAPESP – Quais outras possibilidades que a fotônica poderá proporcionar?
Michal Lipson – Nossa equipe começou a trabalhar no desenvolvimento de um tecido de silício que desvia a luz. O objetivo é gerar invisibilidade. Começamos a fazer isso com objetos minúsculos para que um dia seja possível provocar esse efeito em maior escala. A divulgação dessa pesquisa em 2010 provocou grande repercussão na imprensa
(National Geographic, BBC).
Agência FAPESP – Como funciona esse mecanismo de invisibilidade?
Michal Lipson – A ideia é cobrir o objeto com um manto, mas não queremos que esse tecido seja percebido. Só enxergamos um objeto porque os raios de luz que batem sobre ele são refletidos e alcançam os nossos olhos. Para gerar a invisibilidade, precisamos captar os raios de luz e desviá-los ao longo da capa sem permitir que a luz interaja com o tecido e assim esconder qualquer objeto sob ele. Conseguimos esse efeito com peças minúsculas e utilizando componentes fotônicos. Em um futuro bem mais distante, acredito que será possível esconder grandes objetos com o auxílio da fotônica.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Capital em Fotos


Desde muito jovem sou encantado por fotografias, em especial, àquelas que registram a nossa memória histórica. Bem garoto, mesmo, ficava horas a fio olhando as fotos do “álbum de família”, observando tudo aquilo não sabe com um pouquinho de inveja, de admiração ou de espanto.
            Vejo-me, mais uma vez, com esse sentimento renovado ao escarafunchar o livro “Parahyba – Capital em fotos”, presenteado pelo amigo e autor da obra, Gilberto Stuckert, onde magistralmente põe em foco a memória visual e poética de nossa cidade, através das lentes da família “Stuckert”.
            Antes de ser brindado com seu livro histórico, falamos de nossa adolescência no Conjunto Boa Vista, atual bairro dos IPÊS, de nossa experiência futebolística como “jogador de várzea” – campinho de terreno batido, e das incontáveis travessuras juvenis. Ah, doce nostalgia. Cada vez que o escutava, fabricava dentro de mim um novo nó, bloqueando um pranto capaz de encher caldeirões.
            Nessa viagem extraordinária, fiel ao seu ideário, Gilberto mostra o trabalho fotográfico – com engenho e arte, régua e compasso, coragem e emoção – produzido pelo saudoso Eduardo Stuckert (avô) e Gilberto Lyra Stuckert (pai). Com destaque o Centro Histórico de João Pessoa, através das edificações do Hotel Globo, a Casa da Pólvora, a Catedral Nossa Senhora das Neves e o casario da Cidade Velha, ilustrando com perfeição as fachadas, interiores, monumentos e detalhes arquitetônicos de encher os olhos.
            Li em algum lugar que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final. É verdade, sim! Não poderia ser diferente no seio dessa família de artista: inventivo, instintivo, inspirador e inovador na arte de fotografar. O livro bem demonstra isso quando retrata uma série de fotos da respeitada professora Anayde Beiriz, determinada e muito avançada para os padrões da época.
             O conjunto de fotos contém uma magia que emociona. Notadamente, os festejos carnavalescos, as praças, as praias, as ruas, os transportes e os tipos populares. E mais: exibe uma plêiade de grandes fotógrafos que fizeram escola na Paraíba durante muito tempo.
            Parece implausível, mas acredito que nós perdemos protagonismo, ousadia. Estamos fragmentados e absolutamente dependentes do Estado em razão de sermos lenientes e tolerantes na luta pela preservação da autencidade, beleza e importância da marca cultural de nossa cidade.
            Sabe-se, de resto, que estamos simplesmente varrendo a sujeira para debaixo do tapete. Motivos, caro Gilberto, olhar para cima e blasfemar: Agora chega!!!


                                                LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                  (lincolnconsultoria@hotmail.com)